Rats Domino... rodent jazzes it up by pluking away on tehe double bass

Mais uma fábula contrabaixística …

Era uma vez um contrabaixista que morava no campo.

Ele levava sua vida contrabaixística tranquilamente. Estudava pouquíssimas horas de contrabaixo por dia – para quê essa pressa toda, sô? – e, devagar e sempre, ensaiava duas vezes por semana na orquestra da sua cidadezinha campestre.

Um dia, ele recebe a visita-surpresa de seu Primo Contrabaixista da Cidade, que chega de carro com o contrabaixo, banquinho, e toda a parafernália inútil das pessoas pouca afeitas aos ares campestres: aparelhagem de som, amplificador, home theater, hambúrgueres congelados, feijoada enlatada, tudo amontoado dentro do carro pequeno, e a brigar por um lugar ao ar-condicionado com o contrabaixo.

O Primo Contrabaixista do Campo, feliz com a visita para lá de inesperada, logo convida o recém-chegado primo cosmopolita para participar de um ensaio da orquestrinha local.

O Primo Contrabaixista da Cidade aceita o convite muito a contragosto, e vai ao ensaio com o primo, logo após um lanche horrorosamente saudável – com frutas do campo, da grama, da árvore e da moita-, e ainda suporta bravamente o exército de bocejos que o ataca incessantemente durante todo o ensaio. Como? Bocejando mesmo, ora!

Mais um dia no campo e outro ensaio maçante são suficientes para o Primo Contrabaixista da Cidade fazer sua trouxa acústica e eletrônica e botar as quatro rodas na estrada de volta ao lar-doce-lar contrabaixístico, não sem antes convidar o Primo Contrabaixista do Campo para passar uns dias na cidade.

Lá um dia, poucos dias depois, Primo Contrabaixista do Campo chega à casa do Primo Contrabaixista da Cidade, acompanhado do seu contrabaixo, dos seus chás, da sua alface fresquinha – mas não tanto-, trazendo até mesmo uma ripa de madeira recém-salva do trovão para – quem sabe? – o primo fazer um arco.

O Primo Contrabaixista da Cidade, após se refazer do susto de ver o Primo Contrabaixista do Campo aceitar um convite de mentirinha, e de revê-lo assim tão, tão de repente, não vê outra saída senão a de levar o primo para o ensaio de sua orquestra, que começará em uma hora …

Na ida, o Primo Contrabaixista da Cidade, para agradar o Primo Contrabaixista do Campo, resolve fazer mais uma média de mentirinha com o primo e bajulá-lo o quanto pode afinal, um talento assim tão digamos, campestre, precisa conhecer novos ares, novas orquestras …

Ele só não falou mais, porque tinha que sobrar espaço para que ele pudesse contar todas as vantagens sem desvantagens de ser um contrabaixista da cidade, com bons salários, bons empregos, contrabaixos maravilhosos, ótimos cachês, com as facilidades ilimitadas para se entrar para uma orquestra, etc, até que termina com uma pérola: “Vou falar com o maestro hoje mesmo, para você fazer um cachezinho básico lá na orquestra! Você precisa mudar de ares, e ver o que é uma orquestra de verdade! …”.

O Primo Contrabaixista do Campo fica tão empolgado com a possibilidade de ver de perto as tão sonhadas luzes da ribalta que, inocente coitado, acredita em tudo o que o primo fala, e o que é pior, ao chegar à orquestra, pega logo um contrabaixo que está abandonado nos bastidores do teatro, o leva para o palco, e põe-se a tocar nele na maior cara de pau interiorana.

O Primo Contrabaixista da Cidade não vê solução a não ser falar de verdade com o maestro sobre o seu maravilhoso primo contrabaixista, solista, concertista, camerista, recitalista, “professorista” renomado da cidade de … como é mesmo o nome?

O maestro concorda com a presença de tão ilustre contrabaixista para abrilhantar ainda mais a “melhor orquestra da cidade”.

Na hora do ensaio, o pobre Primo Contrabaixista do Campo é apresentado, de cara, a uma Sinfonia de Mahler, má o quê mesmo?

Perdido no meio de tantas notas, deslumbrado no meio de uma orquestra tão grande, e tocando qualquer coisa, menos o que está escrito, Primo Contrabaixista do Campo leva um susto sem tamanho quando o maestro para a orquestra para passar somente o naipe de contrabaixos, que está um horror!

Um silêncio acontece, seguido de uma roncadeira contrabaixística de um lado e de um contrabaixista atirando notas a esmo para todos os outros lados, em um autêntico e inacreditável festival de nota fora

Aí, o maestro para o naipe, e pede:

– Meu filho, quero ouvir só você!

Trêmulo de emoção com o pedido, o Primo Contrabaixista do Campo começa a tocar. Puum – puum – pum – pum – pum – pum, seis notas e ataca a música com voz sôfrega:

“Demorei muito prá te encontraaar …

Agora eu quero só vocêêê! …” ( * )

O maestro, enfurecido e vermelho de raiva, responde aos gritos:

– E eu quero você … Fora daqui!

– Êta, gente mais ingrata! Faço o que pedem e ainda me tratam assim! … Vou é me embora! …  Não há, ó gente, oh não, luar como aquele do meu campo! …

E, dizendo isso, sai resmungando e maldizendo a maldita orquestra da cidade, com seus salários altos, seus cachês maravilhosos, mas sem chegar aos pés da sua paz contrabaixística campestre!…

Moral da história:

Quer mudar de ares contrabaixísticos?

Às vezes, mais vale uma modesta vida contrabaixística com paz, sossego e oxigênio, que todo o luxo do mundo com preocupações, frustrações e muito gás carbônico orquestral…

 
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