Postagens de março, 2013


Texto publicado na Revista FCBR

Tia Duda vai embora tão rápido quanto entrou, apressada e sem tempo para esperar a sobrinha terminar de fazer cocô.

A menina sai do banheiro e quase tromba com um gigante no quarto…
Ela nunca tinha visto nada igual…
Tão enorme e assustador, que ela cai de bunda no chão e só tem tempo de fugir dele de gatinhas, e o mais rápido que pode.

Esconde-se atrás da porta do seu quarto, apavorada com a ideia de que o barulho do coração denuncie seu esconderijo, e só sai de lá ao ouvir os passos da mãe que acaba de chegar.
- Ma-mãe… gigante! Gigante!
- Mamãe gigante? Que nada, minha filha… “Sou pequenininha do tamanho de um botão, carrego papai no bolso e você no coração” – brincou a mãe, enquanto pegava a pequena no colo.
Umas cantigas na voz da mãe embalam o sono sem gigantes da pequerrucha.
Gigantes não atacam crianças no colo da mãe…

No dia seguinte, a descoberta aterrorizante: a mãe saiu de novo para trabalhar, a Maria está na cozinha e o gigante continua lá naquele quarto enorme, pronto para correr atrás dela pelo apartamento!

E a vida continua seus dias, cheia de limites e medos, e o gigante medonho parado, a olhar para a menina de longe, de frente, de soslaio, com olhares de Monalisa…
No seu território, agora roubado pelo gigante, ela não ousa sequer atravessar as fronteiras daquela porta.

Mas logo logo, no meio de seus brinquedos, a menina descobre a mais corajosa boneca que uma garotinha poderia ter, a Fêfa!
Fêfa não tem medo de gigantes; já tinha lutado com muitos deles, e vencido!

E de conversa em conversa, Fêfa e a menina resolvem bolar um plano, para acabar de vez com aquele gigante que não deixa mais a menina entrar naquele quarto – que nunca fora dela, mas que era como se fosse…
A conversa é rápida e o plano, infalível: Fêfa deverá voar e cair em cima do gigante que, no chão, não poderá fazer mais nada.
E ficariam todos livres dele para sempre: a menina e seu exército de bonecas e brinquedos!

O plano é logo colocado em prática. Uma arremessada de Fêfa e tôuu… a boneca cai no chão, sem passar nem perto do gigante!…
A Fêfa agora corre risco de morte. Alguém precisa salvá-la do gigante, e rápido!

O palhaço Faniquito, apaixonado há tempos por Fêfa, se oferece para resgatá-la.
Uma arremessada, e o palhaço voador atravessa o quarto rumo ao gigante. Zuuumm… e tôuu no chão!
Ele até teve a sorte de voar mais que a Fêfa só que, como parou mais perto do gigante, agora corre mais riscos do que ela!…

E agora? Fêfa e Faniquito desmaiados no chão, e o gigante lá, parado olhando para eles e para a menina, imóvel, pronto para atacá-los!
A menina resolve pedir ajuda ao cachorrinho Pimpão, de pelúcia macia e orelhas bem peludas, que alça seu voo com as orelhas balouçantes e se estabaca bonito de focinho no chão!…

Guerra à vista!

A menina bombardeia o gigante com o pato Tibufi.
Depois é a vez do porquinho Tabule, mas nem a palhaçada da família do Faniquito, nem a patacoada do bando do Tibufi, nem a porcaria da turma do porquinho Tabule conseguem atingir o gigante, que espera pelo exército todo de brinquedos, para lutar com todos de uma só vez.
Chegou a vez do ursinho Pantufo e do seu primo Panqueca voarem para cima do gigante… e nada! Ursos não voam…
Ele é invencível sem mesmo lutar!

E todos os brinquedinhos estão agora no chão, a esperar por um resgate mais eficaz, antes que o gigante acabe com eles!
A menina pensa em chamar a Maria, mas ela não entende nada de gigantes, só de comida, e para gente pequena…

Uma cadeira para se proteger e lá avança ela em direção ao temível gigante quase destruidor de brinquedinhos!
E o gigante medonho parado, a olhar para a menina e para o exército de pelúcia, pano e borracha de longe, de frente, de soslaio, com olhares de Monalisa…

A menina atravessa com cuidado o exército de brinquedinhos nocauteados pelo voo, e aproxima a cadeira do gigante, que só espera pelo momento certo para dar o bote em todos…
Ela então vê uma arma perto dele. Será uma espada? Serve de espada!

A menina sobe na cadeira, pega o contrabaixo pelo pescoço e tenta cortar a barriga dele com a espada.
E ele grita um som esquisito. Um gigante que fala com voz de criança e de adulto!…

A mãe chega para o almoço, e se depara com a cena insólita: todos os brinquedos da casa no chão do quarto, e a menina sentada numa cadeira, cantando e conversando com o contrabaixo…
- Saia já daí e largue agora o contrabaixo da sua tia Duda, Leonarda!
- Tô conversando com o gigante, mamãe! Ele é meu amigo! O nome dele é Ludovico!…
- Ai-ai… Tal tia, tal sobrinha. Mais uma na família que conversa com instrumentos!…

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Segredos Contrabaixísticos de Duda Pum-Pum-Pum Ronc-Ronc by Voila Marques is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas License.

Voila MarquesEntrevista retirada do site www.contrabaixobr.com

Recentemente, tive a honra de participar do projeto de entrevistas do colega de fórum e contrabaixista Tarcísio Caetano,  no Fórum Contrabaixo BR.

Aqui vai a entrevista para vocês lerem!

Voila Marques – a “nossa primeira” contrabaixista

Mais uma da série “Contrabaixistas profissionais do Fórum Contrabaixo Br”.

Para quem não sabe, Voila Marques, além de tudo o que ela dirá abaixo, sempre desenvolveu um trabalho espetacular junto ao acervo técnico deste Fórum. É com um grande prazer que repasso a vocês a ‘entrevista’ que fiz junto a ela.
Para aqueles que curtem ou amam o contrabaixo acústico, esta entrevista é um prato cheio e saboroso, por demais.

1) Conte um pouco de sua infância. Onde você nasceu? Onde viveu? Estudou – formação? Família – pais, irmãos? Casado? Tem filhos? Quantos anos têm hoje?

Nasci no Rio. Sou carioca de nascimento e de “vivemento”.
Sou bacharel em contrabaixo pela UFRJ, formada na classe do prof. Sandrino Santoro, com uma medalha dita de ouro, que nunca deixou de ser de papel…

Vou fazer meio século de vida este ano, e parafraseando o grande Francis Hime, sem alarde, só com a carteira de identidade, nenhuma saideira e muitas saudades…

Minha família é formada por pais, irmãos, marido, filhos, sobrinhos e dois contrabaixos: a Margueritta e o Raphaello.

Tenho dois filhos fofosos, gatosos e boxocotosos: um quer ser guitarrista roqueiro e tem muita facilidade para decorar letras e textos; a outra tem o dom de cantar bem e dançar bem, mas quer ser médica quando crescer. O tempo é quem se encarregará de tornar o futuro presente, seja ele qual for…

Sou casada com o Aurélio Boss2K – ex-contrabaixista profissional e analista de Tecnologia da Informação – há pouco mais de dois anos.
Mesmo com um casamento interestadual – eu no Rio e ele em Brasília -, ele me dá todo apoio e assessoria nos meus projetos contrabaixísticos: livros, aulas, peças de teatro, etc.

Tenho uma família ótima e meus pais são tudo de bom para mim e para os meus filhos. Falo com eles todos os dias. Eles são e serão sempre inesquecíveis…

2) Com quantos anos descobriu a música? Onde e com quem? Como foi esta experiência?

Mesmo com pais que ouviam muita música em casa, descobri “oficialmente” a música numa escola pública – numa época em que as escolas públicas eram realmente boas -, através de uma professora de música mineira dedicadíssima, profª Aída, com quem aprendi os primórdios da Música, tocando flauta-doce.
Depois passei para a flauta transversal e, no momento conflitante de escolher uma carreira no vestibular, entre Ciências Sociais (para depois fazer Antropologia) e Música, eu acabei optando pela última, e passei para o curso de Flauta Transversal, na UFRJ.

3) Como foi sua descoberta do contrabaixo? Quantos anos tinha? Conte-nos sobre isso.

Assim que entrei na UFRJ, constatei que detestava a flauta. Ela era para os outros, não para mim.
Para ser meu instrumento, tenho que sentir o aconchego do som, o sorriso das descobertas. E o som da flauta me distanciava dela a cada nota.
Um dia, com 18 anos, fui assistir uma aula de contrabaixo do Sandrino, e me encantei pelo contrabaixo.
Dias depois, comuniquei a ele minha decisão. Ele riu e ainda disse que eu acabaria trocando para o violoncelo rapidinho.
O Sandrino é dono de uma intuição incrível mas, felizmente, as antenas dele falharam…

4) Como foi sua educação ou aprendizado do contrabaixo? Teve professores? Se sim, quem foi (foram), por quanto tempo e como foi esta experiência – se dava bem com seus professores, foram bons mestres? Se não teve – por quê?

Meu aprendizado ocorreu sem traumas, mesmo não tendo uma referência carioca feminina no contrabaixo…
Quando comecei a estudar o contrabaixo, o Sandrino brincava, dizendo que eu era a “prima-donna” do contrabaixo no Rio.
Tempos depois, soube da existência de algumas contrabaixistas em outros estados, mas nunca me importei em frequentar um meio quase que exclusivamente masculino.
O machismo era tanto, que ouvi uma vez um colega contrabaixista me contar que, ao perguntarem sobre mim, alguém respondeu: “A Voila? Ela toca que nem homem!”.

Assim que comecei o contrabaixo, tranquei o curso de flauta e só o reabri para fazer a habilidade específica em contrabaixo e mudar de curso. Penso que foi uma das melhores decisões que tomei na vida, além da de vender a flauta, hahaha!

Tive a sorte e a honra de estudar com o Sandrino até me formar.
Durante o curso na universidade, namorei o – então talentosíssimo aluno de contrabaixo – Antonio Arzolla, e me casei com ele depois de quase seis anos de namoro.
Convivi com ele durante 17 anos e meio, e ele foi meu segundo professor de contrabaixo – antes mesmo dele se tornar professor da Uni-Rio – e acompanhei todo o processo dele de aluno até ser o contrabaixista renomado que é.

Fiz muitos cursos, masterclasses e aulas com os contrabaixistas: Gary Karr (EUA), Ricardo Cândido (RJ), Massimo Giorgi (Itália), Wolfgang Guttler (Alemanha), David Murray (EUA), Hans Roelofsen (Holanda), Tibô Delor (França), Milton Masciadri (EUA), Ed Barker (EUA), Francesco Petracchi (Itália), Thierry Barbé (França), Jeff Bradetich (EUA), entre outros.

Acredito na arte e na técnica de ensinar, e sei que cada músico faz sua estrada. Acho que a função social da Música começa no seu aprendizado.
Cada professor de contrabaixo foi uma pedra que enfeitou o meu caminho mas, quando paro para pensar neles, vejo que se tornaram estrelas para mim, mesmo em vida.
Os contrabaixistas ocupam o céu e a terra na minha vida.

5) Quando decidiu ser músico profissional ou seguir a carreira de músico? O que te motivou a tomar esta decisão? E o que fez ou passou a fazer para conquistar este “status”?

Decidi ser musicista profissional assim que entrei para a faculdade, mas não foi algo consciente. Foi meio mágico. Eu disse para a minha mãe: “mãe, vou ser musicista e não ou ser rica”. Para isso, eu só fiz estudar, e as portas foram se abrindo. Sempre tive um apoio incondicional dos meus pais para ser contrabaixista. Tenho pais com alma de artista, que a vida não deixou assumir…

Com seis meses de contrabaixo, passei no concurso para a Orquestra Sinfônica Jovem da Funarj, e a ganhar com isso uma bolsa de, na época, três salários mínimos, e a ensaiar três tardes por semana.
Era uma orquestra jovem, regida por um excelente maestro, o saudoso Davi Machado, com compromissos musicais profissionais e políticos, já que era uma orquestra patrocinada pelo governo.
Foi o meu primeiro emprego e também o meu primeiro contato com a rigidez disciplinar de uma orquestra.
Logo no primeiro ano, fizemos um ciclo com todas as Sinfonias de Beethoven, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com concertos memoráveis. Parecia uma orquestra profissional.

6) Como foi sua vida a partir do momento que decidiu seguir a carreia de músico profissional? O que teve que abandonar e o que teve que incorporar ao seu dia-a-dia? Já viajou para o exterior para tocar? Como foi? Faça um paralelo entre suas experiências no Brasil e no exterior.

Com 24 anos eu já era contrabaixista concursada da Orquestra Sinfônica Brasileira, cargo que ocupei por 19 anos. Nessa época, eu estava quase terminando a faculdade, ensaiando na orquestra de segunda a sábado, com vários concertos ao mês, viagens e turnês, e ainda tocava na Orquestra de Câmara de Niterói.
Com a OSB eu conheci praticamente os teatros do Brasil inteiro e fiz uma turnê para Nova York. As outras duas vezes em que estive nos EUA foram para assistir às convenções maravilhosas da International Society of Bassists (ISB). Estive na Holanda para fazer um curso com o contrabaixista Hans Roelofsen, quando aproveitei para dar um mini rolé em Frankfurt, na Alemanha.

Desde que me “profissionalizei”, passei a perder todas as manhãs inúteis ou só minhas, e incorporei as rotinas de ensaios de orquestra, por vezes bem exaustivos. Tocar em orquestra me ensinou a ter uma concentração acima da média no trabalho e nas coisas que faço fora dele.

Minha experiência no exterior foi muito curta para que eu possa fazer um paralelo com as experiências no Brasil, mas o que pude constatar foi que os contrabaixistas brasileiros, além de talentosíssimos, muitas das vezes estão entre os melhores alunos e/ou profissionais lá de fora.

7) Fale-nos sobre a sua experiência como professora de contrabaixo.

Comecei a participar e a dar aulas de contrabaixo, primeiramente como monitora da classe do Sandrino.
O “instinto” de professora sempre me acompanhou. Quando ainda era monitora na UFRJ, o Sandrino me perguntava o que achava dele tocando essa ou aquela peça para os recitais que ele dava.
Uma vez, ele confessou que gostava de perguntar para mim, porque eu era a única pessoa que tinha coragem de dizer para ele o que achava, pois todos pareciam ter medo dizer as coisas para ele.

Fui professora de contrabaixo da Escola de Música Villa-Lobos por 17 anos.
Dar aulas me fez perder algumas noites de sono, tentando entender problemas técnicos e musicais de alunos, e muitos domingos de ensaios com alunos e orquestra de contrabaixo.
Dar aulas também me fez incorporar o hábito de analisar problemas contrabaixísticos em mim e nos outros. Ouvir contrabaixistas maravilhosos me anima; ouvir problemas me instiga.

Na Escola de Música Villa-Lobos, comecei a minha longa série de “Oficinas de contrabaixo”, com aulas de duas horas de duração –duas a três aulas por semestre – em que abordava sobre a história, peculiaridades, acessórios, som do contrabaixo e mercado de trabalho para contrabaixistas, para um público de até 130 alunos iniciantes que ainda iriam escolher um instrumento para estudar.

E essa experiência, somada à de dona de comunidade de contrabaixista no Orkut, me fez ter a ideia de desenvolver as “Orientações contrabaixísticas”, para tratar de problemas contrabaixísticos de contrabaixistas sem acesso a um professor.
Com o desenrolar do projeto, descobri que as orientações poderiam ser estendidas a contrabaixistas com professor, a professores e fãs do contrabaixo e veio a ideia do livro, que está todo escrito e na difícil fase de ilustração.
Ele não será um método, mas uma espécie de manual, com orientações técnicas, musicais, profissionais, “filosóficas”, comerciais e sobre manutenção do contrabaixo e acessórios, etc. Com sorte, ele estará no mercado em 2014.

8.) Como é (era) sua rotina diária? Você tem um plano de estudos? Se sim, como é e por quê? O que você recomendaria como pontos mais importantes a serem abordados em uma rotina de estudos?

Depois do nascimento dos meus filhos, a rotina passou a ser algo imprevisível e improvisável…

Meu plano de estudos – quando consigo fazê-lo – é assim: cordas soltas com arcadas variadas, para aquecer; estudo de mão esquerda numa mesma posição e numa mesma corda, com arcadas variadas – para aquecer; estudo de mudança de posição com variação de dedilhado, corda e variantes rítmicas e de arcadas; estudo de escalas, arpejos e intervalos com variação de dedilhados, corda, ritmo e arcadas; um estudo técnico; uma música (ou mais) ou trecho dela. Se precisar, partes de orquestra.

O meu plano de estudos segue uma “ordem”:
Corda solta: serve para aquecer o braço direito e a mão direita, e também para trabalhar o movimento do arco com as variantes rítmicas, de articulação e de arcadas.

Mão esquerda na mesma posição: aquecimento com a mão esquerda no mesmo lugar só fazendo exercícios para os dedos, começando devagar intercalando corda solta com uma nota presa, depois uma corda solta e duas notas presas, depois uma corda solta e três notas presas.
Todos esses exercícios devem ser feitos com variantes rítmicas e de arcada, para não cansar, e devem ter intervalos a cada minuto ou menos de exercícios, para não sobrecarregar os tendões e articulações. Com as variantes de ritmo, de articulação e de arcada, é possível estudar também o movimento do arco.
Depois disso, faço sequências de três notas presas com dedilhados alternados, e aí, passo para os exercícios com quatro notas presas. Todos esses exercícios devem ser feitos com variantes rítmicas e de arcada, para não cansar, e devem ter intervalos a cada minuto ou menos de exercícios, para não sobrecarregar os tendões e articulações. Com as variantes de ritmo, de articulação e de arcada, é possível estudar também o movimento do arco.

Mão esquerda fazendo mudança de posição: escolho uma sequência de notas na 1ª corda (sol): lá-si/lá dó/lá-ré, por exemplo, aí faço um dedilhado variado com alternância de dedos.
Todos esses exercícios devem ser feitos com variantes rítmicas e de arcada, para não cansar, e devem ter intervalos a cada minuto ou menos de exercícios, para não sobrecarregar os dedos, tendões e articulações. Nas primeiras vezes que esse exercício for feito, só dá para fazer uma pequena parte dele, porque o dedo “queima”. Com as variantes de ritmo, de articulação e de arcada, é possível estudar também o movimento do arco.

Aplicação dos exercícios em escalas, arpejos e intervalos: com variantes de ritmo, articulação e de arcada. Depois, dou continuidade a esse trabalho com um estudo técnico e com uma música;

Sobre os pontos mais importantes a serem abordados numa rotina de estudo, bem, são tantos!…
Penso que precisão dos dedos, clareza das notas e das articulações, maleabilidade, volume e beleza do som, flexibilidade no manuseio do arco, precisão da afinação, um vibrato bonito e uma interpretação expressiva e consciente são tudo de “bão”!

Mas essa “utopia” toda deve ser estudada por partes. O importante é que cada estudo tenha um ou dois objetivos específicos. Os outros são objetivos complementares.
E tão importante quanto isso é intercalar esses objetivos. Alguns desses objetivos aparecem naturalmente ou com a continuidade dos estudos, outros precisam ser mais trabalhados e talvez alguns sejam quase inatingíveis para alguns contrabaixistas.
Com o tempo, todo o contrabaixista deveria saber onde estão os seus problemas e os seus trunfos, porque assim os resultados são mais conscientes, tanto do que se faz, quanto do que ainda não se faz.

9) Em sua opinião, quais são os pontos importantes para ser um músico profissional respeitado? E o que não se deve fazer/agir de jeito nenhum? Se fosse um produtor, que tipo de baixista procuraria contratar?

No meio erudito, o músico que se atrasa para ensaios e concertos, que não sabe ficar em silêncio durante os ensaios, que brinca durante os ensaios, que não tem as músicas prontas ou semiprontas a partir do segundo ensaio, é malvisto.

O problema é que muito estudante de contrabaixo pensa que, por ser estudante, pode chegar atrasado a ensaios da orquestra da universidade, faltar concertos, etc.
Muitas pessoas que me chamaram para cachês ao longo da minha vida contrabaixística, foram contatos feitos durante a época em que ainda era aluna.

Depois que você “mela” a sua imagem como aluno, é muito difícil alguém te chamar para fazer substituições ou cachês em orquestras semiprofissionais, e menos ainda em orquestras profissionais.
O mesmo acontece com o mal profissional: dificilmente será chamado para cachês, porque muitos desses cachês são substituições, em que o contrabaixista que está chamando é totalmente responsável por quem ele chama. E quem quer se arriscar?

Para ser respeitado, o músico precisa ter responsabilidade. É essa responsabilidade que o fará estudar, tocar, chegar na hora certa para ensaios e concertos, prestar concursos, cumprir seus compromissos profissionais, e ser chamado para cachês. É essa responsabilidade que dará a ele o direito de reclamar pelos seus direitos.

Outro ponto que considero importante é o de respeitar os outros. Uma orquestra depende de carregadores de instrumentos, de montadores e inspetores de orquestra, etc.
Uma escola de música depende de faxineiros, telefonistas, secretárias, etc.
Ser educado e gentil com todos não costuma ser difícil e torna o ambiente de trabalho mais tolerável, já que aguentar a falta de educação e de tolerância e, por vezes, a falta de talento de alguns colegas e maestros é uma coisa bem mais difícil de fazer, mas necessária.
Felizmente, algumas orquestras estão mais fortes e menos tolerantes ao desrespeito de seus dirigentes fixos e/ou convidados.

Já vi contrabaixista encrenqueiro(a) não ser chamado(a) ou indicado(a) para cachês por nenhum colega contrabaixista.

Aprendi outra coisa importantíssima no âmbito orquestral, e essa lição me foi passada por um flautista – Murilo Barquette – bem antes de eu sonhar em ser contrabaixista: jamais reclamar de alguma coisa para o colega que esteja tocando errado, a não ser que você tenha muita intimidade com esse colega. Os egos são exacerbadíssimos nesse meio.
Ou você toca como você acha que tem que ser, assim como quem não quer nada, num intervalo, e espera que o colega te note no meio do burburinho orquestral, ou torce para que o colega se manque, ou pede prá Deus te dar muita paciência para aguentar mais essa provação.

Bem, não sou produtora, mas já precisei chamar colegas contrabaixistas para trabalho. Prefiro os que tocam bem, que são responsáveis, educados e.. disciplinados.
Já vi contrabaixistas que tocam bem, são responsáveis e educados, mas que não têm disciplina alguma para tocar em orquestra.
Em orquestra existe hierarquia e disciplina. Não adianta querer fazer perguntas diretamente para o maestro: as perguntas são feitas ao chefe de naipe.
Aquele vestido longo com decotes sinuosos e aquela minissaia poderosa não servem para tocar no concerto, porque o foco da orquestra é a música e não as pernas ou o colo das musicistas.
O jeito é deixar o longo gostoso e a minissaia assanhada para quando você fizer parte do público, ou para aquele strip-tease, à la Jessica Rabbit, para os olhos que o mereçam…

10) O que se deve levar para um show – um baixo ou mais? Encordoamentos, cabos – quantos? Partituras/cifras das músicas, mesmo se sabe de cor?

Mesmo não sendo o João Gilberto, às vezes precisamos levar o banquinho e o contrabaixo, bem acompanhados do arco, resina e afinador.
Como as cordas do acústico são bem resistentes e grossas, nunca vi contrabaixista com cordas sobressalentes na capa.
Quando toco com captador, costumo levá-lo acompanhado do cabo banana.

Dificilmente é necessário levar mais de um contrabaixo para as apresentações.
Isso só costuma acontecer, e bem raramente, se houver necessidade de usar afinações diferentes no contrabaixo.
Por exemplo: se o contrabaixista vai fazer um solo com orquestra, provavelmente ele estará usando a afinação de solo, com o encordoamento um tom acima (lá-mi-si- fá sustenido).
Ele tocará em Dó M e o contrabaixo soará em Ré M e a orquestra estará em Ré M.
Esse tipo de afinação serve para “economizar” as posições um pouco mais agudas, já que o contrabaixo soará mais agudo, e é usada desde o Classicismo, para deixar o som do contrabaixo mais brilhante.

Se o contrabaixista solista ainda precisar tocar depois na orquestra, como contrabaixista de orquestra – o que é bem raro- ele precisará de um contrabaixo com afinação de orquestra (sol-ré-lá-mi) porque, se ele tentar abaixar a afinação do seu contrabaixo em afinação de solo (um tom acima) será um desastre.
Aí, ele precisará de dois contrabaixos, mas provavelmente um deles, o de orquestra, já estará no local do concerto, bastando somente que ele leve o contrabaixo de solo.

A maioria dos concursos de orquestra para contrabaixo pedem peças de confronto usualmente tocadas com afinação de solo, e na hora de tocar as passagens orquestrais elas, em princípio, deveriam ser tocadas com afinação de orquestra.
O contrabaixista precisa se informar se a prova poderá ser feita num só instrumento, com afinação de solo.
Normalmente pode, mas é imprescindível perguntar isso, para evitar problemas com a passagem de uma afinação para outra no mesmo contrabaixo, que é reprovação no concurso na certa.

Na orquestra, sempre tocamos com partitura, mesmo que a música já esteja de cor.
Eventualmente, tocamos de cor alguma música do repertório usual da orquestra quando o maestro faz a apresentação da orquestra ou quando chama alguém do público para regê-la.
Quando o uso da partitura é opcional, tudo depende da sua segurança em tocar sem ela. Contrabaixistas de orquestra não têm muito o hábito de tocar sem partitura.
Nas duas vezes em que solei concertos de contrabaixo com orquestra, a música já estava de cor mas, mesmo assim, toquei com a partitura – de cabeça para baixo – na estante, como se fosse um patuá para dar sorte, hahaha!
Toquei numa peça de teatro (no palco) em que não era permitido o uso de partituras, e foi a única vez na minha vida em que tive que tocar as mesmas músicas durante oito meses consecutivos, de quinta a domingo, e encarar o público sem o artifício da estante com ou sem partitura. Sobrevivi…

11) Como você vê o mercado para o baixista profissional? Que “preço” o “candidato” deve estar disposto a pagar?

O mercado está muito fechado nas grandes capitais (Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, etc.). As orquestras profissionais, bandas militares e as universidades dessas capitais atualmente estão com seus quadros completos, e a quantidade de cachês diminuiu muito nos últimos anos em muitas cidades.

Há orquestras e bandas militares em outras capitais do Brasil, mas eu não sei como está a questão das vagas pra contrabaixistas. O importante é saber que há vida orquestral contrabaixística fora das grandes capitais. Em Aracaju (SE), por exemplo, tem até uma orquestra de contrabaixos, a Orquestra Sergipana de Contrabaixos, dirigida pelo contrabaixista fluminense Jair Maciel.

Há também muita vida contrabaixística nas universidades brasileiras. Muitas dessas universidades têm professores de contrabaixo capacitadíssimos, até com mestrado e doutorado.

O “candidato” a contrabaixista deve estar preparado para encarar de cinco a oito anos de estudo, no mínimo, até conseguir entrar para uma orquestra profissional.
Durante, esse “estágio”, ele pode trabalhar e ganhar uns trocados em casamentos, orquestras jovens, shows, aulas particulares, etc.
Nesse ínterim, pode até ser que algum contrabaixista de orquestra profissional se aposente, e surja um concurso, ou mesmo que ele tenha que partir para capitais menores ou para o interior, enquanto aguarda (ou não) por uma vaga nas grandes capitais ou em orquestras melhores.
Viver de aulas particulares só não é algo incerto para quem é famoso.
A quantidade de alunos que desistem de estudar de repente é muito grande. As escolas de música costumam pagar pouco, e viver de tocar em casamentos não deve ser o sonho de ninguém que achatou, de quatro a oito horas por dia, a sua dumbete no banco para estudar.
Casamento só não é bico para os noivos. Enquanto os noivos estão felizes e saltitantes, eu constantemente fico deprimida com a qualidade musical nos casamentos.

Os contrabaixistas eruditos profissionais, que fazem “freelancer” atualmente aqui no Rio, têm uma orquestra profissional ou uma banda militar profissional para garantir um salário fixo. Os que não tocam nelas têm alguém ou algo que os ajuda a segurar as contas (família, cônjuge, herança, etc.).

Esse panorama, talvez até bem desanimador, não é para as pessoas desistirem de tocar contrabaixo.
É só um toque de realidade, porque muita gente pensa que tocar contrabaixo acústico é sair do elétrico ontem e tocar numa orquestra ou banda militar na semana que vem.

Contrabaixo requer persistência e a confiança de que dias melhores virão. Infelizmente, até por eles têm-se que lutar, mas o tempo de ganhar emprego de mão beijada já passou há muitas e muitas décadas, não é mesmo?

O “candidato” a contrabaixista só precisa saber que o maior investimento no seu estudo não é com a compra do contrabaixo ou mesmo do arco, mas sim o investimento do tempo para estudar, e esse tempo não tem preço e nem cartão de crédito que pague.
E já que vai investir tanto tempo, vê se estuda direito, para o tempo andar mais rápido, e logo você conseguir fazer um concurso e passar.
Logicamente, seu tempo para estudar passará a ser menor, mas será remunerado.

12) Seu setup predileto e seu setup dos sonhos. Explique o porquê de suas escolhas (leve em consideração seus conhecimentos técnicos/práticos sobre o assunto).

Como os contrabaixos acústicos são muito diferentes entre si, ao comprar um instrumento, é importante é saber o que se quer e torcer para poder escolher o que se quer.
Às vezes, a grana é curta e as oportunidades ruins. Às vezes, a grana é curta, mas a sorte é grande. Outras vezes, a grana é boa, mas as oportunidades não.
Também pode acontecer da grana ser boa, e aparecer um contrabaixo ótimo.

Se você for tocar numa orquestra, é importante ter um contrabaixo com graves potentes.
Se for tocar solo, um contrabaixo com agudos brilhantes e bem projetados é perfeito.
Se for tocar em shows, um contrabaixo com graves que não embolem e com bastante sustain é mais adequado, por exemplo.

Mas quando se é estudante, nem sempre a gente pode escolher o contrabaixo ideal.
Eu tive a sorte de ter um contrabaixo tcheco como meu primeiro instrumento e outro tcheco como segundo. E mais sorte ainda de ter o meu primeiro contrabaixo como quarto contrabaixo.

Ultimamente, grande parte dos alunos de contrabaixo têm tido os chinesinhos como primeiro instrumento.
Isso pode não ser tão ruim, pode ser temporário, enfim…
O importante é que tem. Se é um instrumento ou um “estrumento”, não importa. Dias melhores virão. Estude para isso.

Estou satisfeita com meus dois contrabaixos: a Margueritta é pequena, com agudos brilhantes e um som doce e bonito, e eu a uso em casa ou para solos; o Raphaello é grande, com graves redondos e cheios, e eu o uso em orquestra.
Meu sonho de consumo é ter um contrabaixo bem pequeno – um contrabassetto do Andrea Spada -, para poder levá-lo por aí, sem problemas com transporte, seja ele táxi, ônibus ou avião…
E, como já dizia o Hyldon, em “As dores do mundo”:
“E eu vou esquecer de tudo
Das dores do mundo
Não quero saber quem fui mas, sim, o que sou
E vou esquecer de tudo
Das dores do mundo
Só quero saber do seu, do nosso amor”

Gostaria também de ter um arco maravilhoso, para poder alternar com o meu atual.
Eu tinha um arco muito bom, mas ele quebrou durante uma encrinação, e foi constatado que ele veio com um micro remendo imperceptível do luthier que o fez.
Como ficou comigo por mais de década, e eu nunca vi isso, não dava nem para reclamar…

13) Considerações finais a seu critério – dicas, conselhos. Qualquer assunto/informação/detalhe adicional que queira compartilhar será muito bem vinda. As perguntas acima são somente um roteiro de assuntos a serem abordados, mas fique à vontade para acrescentar/suprimir o que julgar necessário. Se puder indicar, também, vídeos no YouTube para postarmos será ótimo. Acredito, que ganharemos muito em conhecimento com sua colaboração, Voila; mas agradeço desde já.
Abs.

Antes de terminar a entrevista, gostaria de agradecer o convite do Tarcisio Caetano e parabenizá-lo pela realização do seu projeto de entrevistas aqui no Fórum!

Tem um ditado popular que diz: “Não se desespere, porque até um chute na bunda te joga prá frente!”.
Portanto, não se desespere, contrabaixista, porque um bom objetivo te joga pro baixo!

Eu já fui jovem, e lutei por meus sonhos contrabaixísticos.
Muitos sonhos ficaram pelo caminho, outros continuam até hoje comigo.
Eu até poderia ter sido mais feliz, mas penso não dá para abraçar o mundo todo com as pernas, ainda mais com um contrabaixo acústico entre elas…
Mas eu já conheci muito do mundo assim, com ele bem junto de mim!…
Boa viagem para os que estão começando essa viagem contrabaixística!

E abraços e beijocas contrabaixísticas para todos!

Para ler mais sobre mim, acessem a minha autoentrevista “Eu sonhei que tu estavas tão…famosa!”:
http://www.voilamarques.com/2011/07/voila-marques-eu-sonhei-que-tu-estavas-tao-famosa/

Sobre dicas, acessem o “A-B-C-Dicas de Contrabaixo:
http://www.voilamarques.com/category/indice-a-b-c-dicas-de-contrabaixo/

Sobre bibliografia, repertório e assuntos contrabaixísticos, acessem a entrevista do contrabaixista Antonio Arzolla para o “Linhas de Baixo”:
http://www.voilamarques.com/2011/07/antonio-arzolla-bravissimo-arzolla/

Sobre métodos e assuntos contrabaixísticos, acessem a entrevista do contrabaixista Sandrino Santoro para o “Linhas de Baixo”:
http://www.voilamarques.com/2011/07/sandrino-santoro-um-grande-vinho-contrabaixistico/

Sobre experiência profissional e assuntos contrabaixísticos, acessem a entrevista em vídeo do contrabaixista Ricardo Vasconcellos para o “Fala Baixo”:
http://www.voilamarques.com/2013/01/projeto-fala-baixo-entrevista-com-o-contrabaixista-ricardo-vasconcellos/

Sobre as “Orientações contrabaixísticas”, acessem:
http://www.voilamarques.com/category/indice-orientacoes-contrabaixisticas/

Convite feito pela contrabaixista Ana Valéria Poles prá mim, e estou repassando procês!…

Programa contrabaixístico para domingo!

Infelizmente, ficarei aqui remoendo a minha inveja contrabaixística dos que assistirão o concerto…
Muito sucesso para você e o Sérgio, Valéria!
Beijocas contrabaixísticas

A Orquestra Bachiana Filarmônica SESI SP toca no dia 17 de março, sob a regência do maestro João Carlos Martins, tendo como solistas os contrabaixistas Ana Valéria Poles e Sérgio Oliveira.
Eles tocarão o Concerto para dois contrabaixos e cordas “Passione Amorosa”, de Giovanni Bottesini.

Programa:
Bottesini – Concerto para dois contrabaixos e orquestra (Passione Amorosa)
Mozart – Concerto em dó menor nº 24, K.491 para piano e orquestra (solista Vera Astrachan)
Haydn – Sinfonia nº 94, A Surpresa

Data: 17/03/2013 – domingo
Horário: 17h
Local: Sala São Paulo
Endereço: Praça Júlio Prestes, 16
São Paulo – SP
Tel: (11) 3045-0121
Ingressos: de R$ 10 a R$ 20
Telefone da bilheteria da Sala São Paulo: (11) 3223-3966
Ingresso rápido: 4003-1212 ou www.ingressorapido.com
Estacionamento: sim
Metrô: Estação Luz (linha azul)

“Voila, meu problema é o seguinte: Não encontro um breu adequado ao meu clima. Dizem que isso faz variar o som do instrumento. Eu não acreditei, só que meu instrumento o fez. De noite, eu não tiro o mesmo timbre que eu tiro de dia. De dia o arco “agarra” muito mais! Pra que isso aconteça de noite, eu tenho que passar breu novamente no arco, e… nem sei se já viu disso, passo breu até nas cordas!”. Pergunta feita por Lucas Guimarães, no meu canal do Youtube.

Lucas, pode ser que haja muita variação climática na sua cidade. Sim, o som varia com a resina, com o arco (tem arco que “fecha” mais o som, tem arco que “abre”, tem arco que “embola” as notas, etc), com o clima, com o arco, com o contrabaixista… O som é um conjunto de fatores variáveis!

Se a sua crina está nova (com 2 anos, mais ou menos), então descartemos um problema de idade na crina. Se ela estiver muito suja, sugiro um banhinho com sabão de coco e um pentinho, sem molhar a vareta. Deixe-a secar à sombra e, depois de seca, enrole a crina pela vareta e deixe assim por meia hora, antes de usar o arco.

Eu não indico o uso de duas resinas diferentes, porque isso vai cagar o seu arco. Você já experimentou tocar de dia e não tocar à noite, e tocar novamente de dia, para ver se a crina “agarra” normalmente? Quando a crina está velha ou não é de boa qualidade, ela não pega resina direito de um modo geral. Não tem essa de crina temperamental, escolhendo o turno para trabalhar bem. Sendo assim, penso que o seu problema pode ser mesmo o clima, com variações grandes de temperatura e umidade, ou a quantidade de resina que você está usando. Usar muita resina, pode deixar a crina “ensebada” e, ao invés dela funcionar como se tivesse muita resina, não. O arco passa a falhar as notas, pelo excesso de resina.

O ideal é ter dois arcos: um para usar em casa e outro para a orquestra. Caso você só tenha um, sugiro que passe a usar menos resina nele. Em casa, eu não passo muita resina: uma ou duas passadas são suficientes para muitas horas de estudo. Na orquestra, passo de duas a três passadas e isso vale para um ensaio de três horas. Dificilmente passo mais resina durante o ensaio. Muita resina pode atrasar a emissão das notas. Pouca resina deixa o arco “deslizando” demais, com pouca aderência.

A resina faz o arco aderir na corda, mas o volume de som é dado pelo peso do corpo do contrabaixista, que faz pressão sobre as cordas. Procure dar também uma analisada em como está esta questão no seu estudo, ok?

Não sei qual a resina que você usa, mas sugiro a Nyman ou a Pop’s. Verifique a idade e a qualidade da resina, e depois, talvez uma modificação na quantidade de resina resolva o seu problema.
Experimente começar a tocar com uma passadinha, ou mesmo sem nenhuma para, como a gente diz, o arco “esquentar”.
No início isso vai ser bem difícil, mas depois você se acostuma. Se o arco “agarra” mais de dia, possivelmente o clima é mais quente na sua cidade nesse período. Se à noite o arco “agarra” pouco, a umidade deve ser maior nesse período.
Sendo assim, sugiro que você experimente passar bem pouca resina de manhã, e um pouco mais à noite, mas nada de excessos, e nem de passar resina nas cordas.
Lembre-se de que você estranhará muito isso no início e para que você não desista de estudar, sugiro que você diminua o uso da resina aos poucos, tipo uma passada a menos de resina por vez de estudo.

Outra coisa que você pode experimentar, é só passar resina à noite e não de manhã, e ver o resultado. Infelizmente e felizmente, como as variantes para a emissão são bem abrangentes, a jeito é fazer experiências, até chegar a uma conclusão. Só não se esqueça que a função da resina é aderir a crina na corda e não “agarrar” nela.
O som de contrabaixista com excesso de resina é muito feio e viciante: ele usa sempre em excesso e não consegue tirar som com pouca resina, assim como não percebe mais aquele som “arranhado” e horroroso. Na orquestra, a gente usa um pouco mais de resina, mas só lá, ok?

Outra coisita: a Pop’s é uma resina mais mole e a Nyman é menos mole. Em São Paulo, há uma “preferência” pela Pop’s, e no Rio de Janeiro há uma preferência pela Nyman, embora nenhuma resina seja unanimidade no mundo. Como à noite sua resina não pega bem, e não sei qual resina e nem qual a quantidade que você usa e nem o clima da sua cidade (nossa, não sei nada, hahaha!), talvez a Pop´s fosse uma boa opção para você, desde que usada com muita moderação durante o dia.

Leia mais sobre o assunto: Problemas com a resina?

Espero que essas dicas te ajudem.
Qualquer coisa, é só me escrever, ok?
Abraços contrabaixísticos

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Divulgação enviada pelo contrabaixista e professor Alexandre Ritter, aqui para o Blog.

Após clicar na imagem: Ctrl + (para dar zoom) e Ctrl - (para diminuir zoom).

Texto extraído do site http://arquivoscontrabaixo.blogspot.com.br

“Como escolher um Arco” parte I, por Giovanni Lucchi*

Introdução

Muitos são os musicos que, tendo de comprar um arco, procuram um revendedor buscando um arco de algum autor de bom nome convencidos que isso seja uma garantia de boa qualidade.
Infelizmente isso não é sempre verdade; a boa qualidade de um arco depende ao final da profissionalidade do construtor na escolha da madeira e da sua técnica de trabalho. Porém, ao contrário dos instrumentos de corda, o contínuo utilizo do um arco determina com o tempo o deterioramento das fibras de sua baqueta fazendo com que perca gradualmente suas qualidades iniciais.
Com o tempo, entre outras coisas, o arco passa na mão de muitos restauradores mais ou menos qualificados, que terminam por modificar até bastante suas características originais. Acontece, por exemplo, que alguns desses restauradores para dar brilho à baqueta usam, entre outras substâncias nocivas, certos óleos que se por um lado dão luminosidade à madeira, por outro tiram um pouco de sua elasticidade, destruindo a fibra.
O arco assim tratado terá com o tempo cada vez menor resposta, menor resistência e perderá sua característica sonora inicial. Terá, além do que, uma falsa flexibilidade com uma produção de harmônicos menor daquela precedente e por isso e um som fechado que dificilmente se propaga para longe de quem o toca.

Cor da Madeira

A cor do pau-brasil (ou pernambuco) vai do amarelo a um marrom escuro, cor que com o tempo escurece devido à oxidação natural. Um bom archetier sabe que a beleza da madeira, ou seja as cores, o desenho de suas fibras e o brilho não são sempre garantias da qualidade da madeira e por consequência do arco. Existem 7 variedades botânicas do Pau-Brasil conhecidas, todas podendo produzir arcos de diferentes qualidades. Nem mesmo a cor pode garantir a boa qualidade da baqueta: depois de tantos anos de experiência posso afirmar que tanto na cor amarela quanto na marrom escura, é possível encontrar ótimo material elástico ou com pouca elasticidade.

Como experimentar um arco

Aderência do arco sobre a corda

Não é absolutamente necessário experimentar o arco em um concerto para conferir suas qualidades, basta prestar atenção a alguns pontos.
1-Tocar em pianíssimo
2-Na ponta (últimos 4 cm)
3-Corda solta (prestando atencão à partida da vibração da nota)
4-Quarta corda (a mais difícil de botar em vibração)
5-Perto do cavalete (somente os arcos com ótimo material podem obter bons resultados nessa região)

Geralmente se pensa que um arco com a ponta mais pesada dê mais aderência na ponta.. Isso é absolutamente errado: existem arcos levíssimos na ponta que possuem uma aderência maravilhosa assim como aquele bem pesados na ponta com pouca aderência.
Quando experimentamos um arco em todas as suas regiões, observamos que no talão o contato é bastante fácil de obter, pois a posição é bem próxima à mão. Por isso quando nos afastamos do talão sentimos melhor as características do arco: mais ou menos no centro notamos a qualidade da madeira, a conicidade da baqueta e o tipo de curva, então aí teremos o resultado final da união desses componentes.
Chegando à ponta, esses componentes se fazem ainda mais importantes: este é o ponto crítico onde se vê o máximo esforço da baqueta. Por isso se nela existem imperfeições essas se tronam mais evidentes que em outras partes do arco.
Experimentando concomitantemente os 5 pontos acima citados, não há necessidade de escutar a qualidade sonora emitida, mas sim a aderência sobre a corda. Somente um arco com boa qualidade de madeira, uma boa curva perfeita, espessuras corretas e boa qualidade de crinas poderá ter uma melhor aderência.
Com esse pequeno procedimento, o músico será capaz de realmente saber se o arco poderá responder a elevadas exigências técnicas e sonoras necessárias para a sua performance. Pois ao final é a boa aderência que determina se um arco será capaz de ter um emissão ideal, incisiva mas expansiva ao mesmo tempo.

O trinado

Outro teste bastante significativo para verificar a qualidade do material e a aderência do arco é a execução de trinados. Cada vez que se muda de nota dentro de um trinado, o arco deve retomar a aderência, não deixando atrasar a mudança de vibração, e isso demonstrará o quão elástica é a madeira para se adaptar rapidamente a diferentes batimentos e vibrações.

*Giovanni Lucchi é considerado a maior referência na Itália em matéria de arcos, tendo construído para grandes artistas como Mstislav Rostropovich, Pinchas Zuckerman, Gary Karr, entre outros.

Mais informações em http://www.lucchicremona.com/.”

Texto traduzido por Vinicius Frate.

Giovanni Lucchi faleceu com quase 70 anos, em agosto de 2012. Fonte: The Strad, agosto/ 2012

Texto retirado do site www.mozarteum.org.br

“Mestres internacionais formando jovens brasileiros

Destinadas aos estudantes de música e aos iniciantes, mas abertas ao público, as masterclasses do Mozarteum Brasileiro já se tornaram referência na formação e no desenvolvimento dos músicos brasileiros. São encontros didáticos nos quais artistas consagrados, que participam da temporada internacional, dedicam-se a ministrar aulas gratuitas aos jovens, além de propiciar aos interessados em geral conhecimentos mais específicos sobre os instrumentos sinfônicos e suas técnicas.

Os mais destacados estudantes são convidados a participar de uma audição especial, na qual são selecionados os músicos que participarão dos intercâmbios culturais, por meio de bolsas de estudos viabilizadas pelo Mozarteum Brasileiro.

Desde 2000, quando foram criadas, as masterclasses do Mozarteum Brasileiro já atenderam a mais de 1.500 estudantes e 5.400 ouvintes, em mais de 300 masterclasses com virtuoses internacinais.

Programação de aulas – 2013

3 de abril – 10 às 13h, com integrantes da Camerata Bern:
Violino
Viola
Violoncelo
Contrabaixo

abril – 10 às 13h, com integrantes da Lithuanian National Symphony Orchestra:
(a confirmar)
Violino
Viola
Violoncelo
Contrabaixo
Flauta
Oboé
Trompa
Tompete

30 de abril – 10 às 13h, com integrantes do Quarteto Curtis on Tour:
Violino
Viola
Violoncelo
Violão

19 de junho – 10 às 13h, com Menuhin Trio:
Violino
Violoncelo
Piano

Agosto – 10 às 13h,com integrantes da Deutsche Kammerphilharmonie Bremen:
(a confirmar)
Violino
Viola
Violoncelo
Contrabaixo
Flauta
Oboé

4 de setembro – 10 às 13h,com integrantes da Arte Ensemble:
Violino
Viola
Violoncelo
Contrabaixo

1 de outubro – 10 às 13h, com integrantes da NDR Orchestra Hamburg:
Violino
Viola
Violoncelo
Contrabaixo
Flauta
Oboé
Trompa
Trompete

5 de novembro – 10 às 13h, com integrantes da Bucharest Symphony Orchestra:
Violino
Viola
Violoncelo
Contrabaixo
Flauta

Todas as masterclasses serão ministradas na EMESP Tom Jobim localizada no Largo General Osório, 147, Campos Elíseos, São Paulo – SP.
Agenda sujeita a alteração.

Como participar

Alunos ativos
Inscrições através da EMESP
www.emesp.org.br

Alunos Ouvintes
Inscrições através do Mozarteum pelo telefone (11) 3815-6377 de segunda a sexta das 10h às 17h.

As vagas são limitadas.”

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