A taça… não era uma taça qualquer, era a taça: sinuosa, atraente, ora azul, ora vermelha…

Lapidada à mão, de finíssimo cristal, design italiano, antiga… muito antiga.
Ela era colorida, mas os arabescos e os pés eram de cristal transparente, de uma delicadeza única.
Feita maliciosamente por alguém que entedia de sentidos e mistérios, ela fora feita para a gente ver e desejar olhar sempre para ela, descobrindo um desenho diferente a cada momento novo de atenção; para se tocar e desejar passar os dedos por ela, em movimentos de dança árabe, até ouvir o som do cristal que canta pela beirada molhada de água; para cheirar e sentir o seu aroma de cristal molhado, até sentir o aroma da imaginação; para desejar a água leve e límpida que acompanha o movimento dos dedos bailarinos que escorregam e se desenvolvem pela taça, deixando a água ficar ora colorida como a taça, ora transparente como os arabescos da taça e ora furta-cor, reflexo da luz do sol que nada na água ou vinda da luz da noite de lua na janela, de uma vela, de um lustre de cristal; para terminar a coreografia dos dedos com o roçar dos lábios no cristal gelado e um beijo morno e sensorial entre o corpo, a taça e a água e sentir prazer com tudo isso…
Sempre tive uma atração incontrolável por cristais, louças, flores, pedras e… caquinhos de azulejo.
As jóias, que não eram muitas, deixaram de fazer parte da minha vida há muito tempo: num desses revezes financeiros, minha mãe se desfez de todas as jóias de família, sem que eu tivesse sequer tempo de me despedir delas. Chorei muito, mas me “consolei” sabendo que, graças à minha memória visual, eu as reconheceria onde quer que as encontrasse. Isso nunca aconteceu, mas me fez parar de chorar.
Não consigo fazer um retrato falado de alguém, assim como não me lembro das pessoas pela imagem delas como um todo, mas sim pela voz.
Mas tenho uma boa memória visual para pinturas, cenas de filmes, preços de supermercado, padronagens de fazendas e números, muito embora prá esses últimos eu use instintivamente, combinações de cores para memorizá-los. Assim 4 é verde, 5 vermelho, 3 amarelo, etc. Números de telefone são sempre associados a cores.
Qualquer menina “normal” quando vai brincar na pracinha leva boneca, mas eu sempre preferi levar um caminhãozinho, prá voltar com ele cheio de pedras e cacos de azulejo…
Voltando à taça, sempre disse que uma mesa bem posta me conquista pela beleza. A comida é até secundária. Isso é um absurdo, principalmente porque adoro comer, mas a taça de cristal ou um bonito prato de porcelana ou uma toalha de mesa bordada me conquistam de imediato. Basta ter só uma taça e isso me faz feliz.
Estou até pensando agora em usar esse artifício para emagrecer: vou colocar um treco desses em cima da mesa e ver se eu me esqueço de comer…
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